Parte 2
ESTRUTURAS DA CULTURA POPULAR
Divide-se em quatro captulos

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A TRANSMISSO DA CULTURA POPULAR

Cada arteso e cada campons estava envolvido na transmisso da cultura popular, da mesma forma que sua me, mulher e filhas. Eles a transmitiam cada vez que contavam 
uma estria tradicional a uma outra pessoa, ao passo que a criao dos filhos necessariamente inclua a transmisso dos valores de sua cultura ou subcultura. A vida 
numa sociedade pr-industrial estava organizada em base a coisa feita  mo pelo prprio indivduo num grau que hoje em dia mal podemos imaginar. Os pastores faziam 
e tocavam suas prprias gaitas de foles. Os homens da casa faziam os mveis e as mulheres faziam as roupas; no campo, esses eram os afazeres naturais do inverno. 
Quem ficava doente ou sofria um acidente seria tratado em casa. Grande parte dos entretenimentos tambm estava organizada na base do "faa-voc-mesmo".
Grande parte, mas no tudo. Nem a casa e tampouco a aldeia eram culturalmente autnomas. Dentro da aldeia, alguns homens e mulheres cantavam ou contavam estrias 
melhor que outros, como "die Frau Viehmnnin", a viva de um alfaiate da regio de Kassel, de cujo talento temos notcia porque os irmos Grimm transcreveram 21 
estrias suas.1 Se um campons ou o seu gado ficavam doentes e os remdios caseiros no surtiam efeito, ele recorreria a um "homem de saber" ou a uma "mulher sbia", 
isto , curandeiros semiprofissionais. Se ele queria uma ferramenta de metal, ele iria ao ferreiro local, arteso profissional, ou esperaria a vinda de um vendedor 
ambulante  aldeia. Menestris ou atores itinerantes proporcionavam esporadicamente divertimentos profissionais. Em suma,  til distinguir entre o que o folclorista 
sueco Carl von Sydow chamou de "portadores ativos" das tradies populares e os restantes, que eram relativamente passivos.  essa minoria de portadores ou "suportes" 
ativos da tradio que  pg 115 consttui o interesse principal deste captulo, que descrever o tipo de gente que eram e os quadros sociais em que operavam, tentando 
determinar se eles eram inovadores ou simplesmente "guardies" ou "mantenedores" da tradio.2

OS PROFISSIONAIS
 inevitvel o problema da definio. O que  um artista "popular"? A definio mais til parece ser a do artista que trabalha principalmente para um pblico de 
artesos e camponeses. Isso exclui, digamos, Drer ou Hogarth, embora alguns de seus trabalhos grficos provavelmente fossem muito difundidos. Um caso marginal  
o de Romeyn de Hooghe, o gravador holands do sculo XVII. De Hooghe (sobrinho do pintor Pieter de Hooghe) era formado em direito. Suas gravuras dirigiam-se s classes 
altas, e ele recebeu ttulo de nobreza do rei da Polnia. Eu o consideraria um artista popular porque suas obras mais importantes eram gravuras polticas de ampla 
circulao. Da mesma forma incluiria James Gillray, o cartunista ingls do sculo XVIII. H pouqussimo a dizer a respeito da maioria dos seus colegas. Sabemos os 
nomes, mas pouco alm disso, de algumas famlias de gravadores franceses da rua Saint-Jacques, de Paris, que faziam gravuras populares: a famlia Mariette (ativa 
por volta de 1600 a 1774), a famlia Jolain (ativa por volta de 1650 a 1738) e a famlia Basset (ativa por volta de 1700 a 1854), mais conhecida porque um dos seus 
membros fez gravuras a favor da Revoluo Francesa.  difcil dizer se devemos consider-las como famlias de empresrios, gravadores ou artistas  provavelmente 
eram as trs coisas ao mesmo tempo. O mesmo, presumivelmente, vale para a famlia Abadal, que se manteve ativa em diversas cidades da Catalunha desde o sculo XVII 
at o incio do sculo XX, e para a famlia Didier de Epinal, na Lorena, que j no sculo XVIII era um importante centro de imagerie populaire. Podemos ter uma certa 
idia da escala de suas operaes com a informao de que Jean-Charles Didier morreu em 1772 deixando um estoque de mais de 56 mil imagens.3
Na Noruega e na Sucia, sabe-se alguma coisa sobre centenas de artesos que trabalhavam em distritos rurais durante o sculo XVIII, porque no era raro assinarem 
e datarem seus trabalhos e porque os registros locais, alm das datas de batismo, casamento e funeral, tambm nos dizem algo sobre o seu grau de alfabetizao, seu 
conhecimento pg. 116 do catecismo e at a quantidade de mveis em suas casas. Sobre alguns deles tambm sobreviveram tradies orais. Alguns desses artesos surgem 
como personalidades artsticas bem definidas, indivduos que desfrutavam de uma fama local considervel: homens como Clemet Hakansson de Smland e o cabo Gustaf 
Reuter, de Hlsingland, dois grandes expoentes suecos das bonadmaler, pinturas em tecido; Kittil Rygg, de Hallingdal, e Ola Hansson, de Telemark, importantes "pintores 
de rosas" do leste da Noruega; ou Jakob Klukstad, de Gudbrandsdal, talvez o maior entalhador de madeira da Noruega do sculo XVIII.
Alguns pintores, entalhadores e tecelos do sculo XVIII eram decididamente profissionais, embora, como o cabo Reuter, pudessem ter exercido uma outra profisso 
antes de se tornarem artistas, e podiam ter propriedades rurais que lhes trouxessem alguma renda. Muitas vezes eram itinerantes e trabalhavam nas casas dos clientes. 
Seu aprendizado era informal. Os pintores podiam aumentar seu repertrio copiando ou adaptando gravuras ou entalhes e podiam tentar transmitir suas habilidades para 
os filhos. O filho e o neto de Clemet Hakansson eram pintores como ele, enquanto no s os filhos como tambm cinco filhas seguiram os passos do pintor sueco Per 
Nilsson, o que sugere que a famlia trabalhava em equipe e fazia suas pinturas em casa. Por vezes, conseguem-se rastrear algumas inovaes especficas at chegar 
aos artistas individuais: por exemplo, atribui-se a Erik Eliasson, de Rttvik, em Dalarna, que pintava motivos florais em armrios, a inveno de kurbits ou cabaas 
estilizadas. No sabemos o que os artistas e seus clientes pensavam acerca das inovaes, e no atual estado da pesquisa ainda  difcil fazer qualquer generalizao 
segura at mesmo sobre o recrutamento, aprendizagem e estatuto desses artesos rurais.4
Sobre os produtores de objetos artesanais populares em outros lugares, s  possvel falar em termos ainda mais vagos e gerais. Nas cidades grandes, havia espao 
para pintores especializados, como os pintores de tabuletas em Londres, que se concentravam em Harp Alley, ou os madonneri, pintores de imagens votivas  Nossa Senhora, 
em Veneza ou Npoles. Outros pintores andavam pelo interior em busca de trabalho, fosse para pintar tabuletas ou retratos. Em algumas regies, onde a argila era 
boa, como nas marche italianas, podiam-se encontrar aldeias inteiras de oleiros semiprofissionais. Em outros lugares, quem mais se aproximava de um artista profissional 
era o ferreiro da aldeia, pois os ferreiros no se restringiam a ferrar cavalos ou consertar ferramentas, mas tambm faziam cata-ventos e outras peas decorativas 
de ferro batido. Na Alscia, sul da Alemanha e ustria, o pg. 117 ferreiro fazia figuras votivas em ferro, e na Sucia, onde o minrio era abundante, ele fazia 
monumentos fnebres com o mesmo material.5
Sobre os apresentadores, h um pouco mais a se dizer. Esses sucessores dos menestris medievais formavam um grupo variado e verstil.6 Para empregar apenas termos 
correntes na Inglaterra entre 1500 e 1800, entre eles incluam-se cantores de baladas, apresentadores de ursos amestrados, bufes, charlates, palhaos, comediantes, 
esgrimistas, bobos, prestidigitadores, malabaristas, trues, menestris, saltimbancos, tocadores, titereiros, curandeiros, danarinos equilibristas, apresentadores 
de espetculos, tira-dentes e acrobatas (pois mesmo os tira-dentes, operando ao ar livre, cercados de espectadores, eram uma espcie de artista de rua). Muitas dessas 
designaes se sobrepunham porque as funes tambm se sobrepunham; esses profissionais de diverses certamente apresentavam um espetculo de variedades. Um "comediante" 
no se restringia a papis cmicos. Um "tocador" (compare-se com o Spielmann alemo e o igrec eslavo) podia tocar instrumentos, desempenhar um papel, fazer o bobo 
ou tudo isso ao mesmo tempo. Ele precisava ser um mestre em mmica e prestidigitao. As trupes inglesas podiam fazer sucesso em tours pelo continente na medida 
em que seus nmeros no dependiam da lngua. Nas palavras de um documento dinamarqus, os msicos ingleses eram instrumentister och springere, "msicos e acrobatas". 
Um bufo ou palhao podia cantar ou improvisar versos, esgrimir ou danar numa corda, fazer acrobacias ou malabarismos com bolas no ar, e o mesmo acontecia com um 
menestrel. Um dos poucos menestris ingleses do sculo XVI cujo nome chegou at ns, Richard Sheale (cuja verso da balada Chevy Chase foi impressa nas Reliques 
de Percy), se autodenominava um "malandro alegre", isto , um palhao. O antigo termo espanhol para menestrel, juglar  um pouco ultrapassado no sculo XVI  lembra-nos 
de que o mesmo homem podia contar estrias ou fazer malabarismos com bolas; e a palavra em latim que lhe deu origem, joculator, "que faz graas", sugere que um menestrel 
desempenhava as vrias modalidades de entretenimento. To impressionantes eram as proezas desses indivduos que juggler ("malabarista") veio a significar "mgico", 
enquanto o termo conjurer ("conjurador"), que originariamente designava quem invocava os espritos, no sculo XVIII passou a se referir a algum que fazia prestidigitaes, 
comendo fogo ou puxando longas fitas coloridas de dentro da boca. s vezes tambm se acreditava que os atores e atrizes tinham um pacto com o demnio, considerado 
o grande mestre do ilusionismo.
Restam-nos agora os "apresentadores de espetculos", quer apresentassem pg. 118 bonecos, relquias, figuras de cera ou mostrassem ursos, macacos, espetculos de 
"lanterna mgica", com imagens de batalhas ou cidades exticas como Constantinopla ou Pequim; e resta tambm uma srie de termos que se tornaram pejorativos, como 
"charlato", "saltimbanco" e "curandeiro" (quacksalver ou simplesmente quack). Esses termos nem sempre eram pejorativos nos sculos XVI e XVII, e o seu significado 
era ento mais preciso do que veio a ser posteriormente.* O charlato, ou oprateur, como s vezes ele se autodenominava na Frana, era um vendedor ambulante de 
plulas e outros remdios, que fazia palhaadas ou desfiava uma arenga engraada para atrair a ateno de fregueses em potencial. Antoine Girard, conhecido como 
"Tabarin", foi um exemplo famoso de charlato, e talvez deva se acrescentar seu contemporneo Guillot-Gorju, do sculo XVII, que alternava os papis de doutor de 
palco e mdico real, e at o grande ator austraco Josef Anton Stranitzky, que tambm arrancava dentes. Essa combinao entre cura e diverso , de fato, extremamente 
antiga. A cura era, e em algumas partes do mundo continua a ser, uma dramaturgia social, uma encenao pblica que envolve rituais elaborados.7 Na Itlia, a palavra 
ciarlatano (ou ciurmatore) pode significar um camel que vende remdios ou um ator de rua. Os ciarlatani que se apresentavam na piazza distinguiam-se dos comedianti 
de status mais alto, que atuavam em casas particulares. O montimbanco era o charlato que subia num estrado ou palco, cercado de acessrios um pouco mais elaborados. 
Havia tambm os saltimbanchi, acrobatas em bancos, e os cantimbanchi, cantores de bancos (O Bnkelsnger alemo). Esses cantores muitas vezes dispunham de uma srie 
de ilustraes para as suas baladas e uma vareta para chamar a ateno do pblico, sem mencionar os exemplares das prprias baladas, que vendiam depois da apresentao, 
pois alm de artistas (ilustrao 1) eram tambm mascates e "comerciantes de baladas". Os charlates tambm vendiam baladas. Em alemo, esses cantores tambm eram 
conhecidos como Gassensnger ou Marktsnger, porque cantavam nas ruas ou praas de mercado, ou ainda como Avisensnger (cantores de notcias), quando se especializavam 
em canes sobre acontecimentos correntes. As mulheres s vezes faziam esse ofcio; em Viena, existiam 

(*) O termo "charlato" parece que foi aplicado pela primeira vez para se referir a falsos intelectuais por J. B. Menckenius em 1715.
cinquenta Lieder-weiber ou "mulheres de canes" em atividade em 1797.8
Essas associaes entre nomes, idias e profisses no se restringiam pg. 119   Europa ocidental. O termo russo skomorokh pode ser traduzido alternadamente por 
"tocador", "bufo" ou "acrobata". Os skomorokhi dos sculos XVI e XVII recitavam byliny, faziam-se de bobos, lutavam, faziam malabarismos, apresentavam ursos adestrados 
em seu repertrio de truques e faziam espetculos de lanterna mgica na rua.9 
Raramente descritos com mais vagar, esses apresentadores eram freqentemente mencionados de passagem e desses muitos fragmentos emerge uma espcie de quadro geral. 
A profisso dos apresentadores tinha sua hierarquia de sucesso. No alto, estavam uns poucos apresentadores que trabalhavam em cidades grandes, eram chamados  corte 
e suas obras eram publicadas, como Tabarin, em Paris, Tarleton, em Londres, ou Gil Vicente, em Lisboa, que era poeta, ator e msico, isto , em outras palavras, 
um jogral, um menestrel. (Shakespeare est excludo porque no trabalhava principalmente para artesos ou camponeses.) Tambm em alta posio estavam alguns poucos 
empresrios, como Martin Powell, que apresentava seus bonecos em Bath e mudou-se para Covent Garden em 1710, ou seu contemporneo francs Franois Brioch, que tinha 
uma banca de bonecos na Foire Saint-Germain. Numa visita  Sua, Brioch foi preso certa vez sob suspeita de ser mgico, mas prosseguiu, chegando a ser citado por 
Boileau e indicado como oprateur de Ia maison du roi, o que se pode traduzir como "charlato nomeado". Os homens que tinham seus pontos em lugares como a praa 
So Marcos, em Veneza, praa Navona, em Roma, ou Pont-Neuf, em Paris, deviam estar entre os aristocratas da profisso. Em vista do tamanho dessas cidades, no devem 
ter tido muita necessidade de se deslocar. Alguns deles fundaram dinastias, como a famlia  Brioch ou a famlia Bienfait, que tambm eram titereiros na Foire Saint-Germain, 
ou a famlia Hilverding, titereiros na Europa central.
Os palhaos venezianos Zan Polo e Zane Cimador eram uma dupla famosa de pai e filho. A esses indivduos podemos acrescentar um novo tipo de artista para a poca 
ps-gutenberguiana: o escritor profissional de baladas, como o ex-advogado William Elderton ou o ex-tecelo Thomas Deloney, e ainda pessoas que estavam na fronteira 
entre a cultura erudita e a cultura popular, como Elkanah Settle, um indivduo educado em Oxford que se considerava um rival  altura de Dryden e tinha como patrono 
Shaftesbury, mas trabalhava para a sra. Mynn, uma apresentadora de espetculos na feira de so Bartolomeu, e numa pea, ao que se disse, ficou reduzido a fazer o 
papel de drago. Em pontos mais distantes da Europa, bardos tradicionais ainda desfrutavam do patronato da nobreza e status elevado, como Sebestyn Tindi, pg.120 
na Hungria do sculo XVI, que recebeu ttulo de nobreza, e talvez John Parry, no Pas de Gales do sculo XVIII.10
          Abaixo desse grupo pequeno e respeitvel vinha a massa da profisso, gente que passava a vida em andanas. Como a densidade populacional nos incios da 
Europa moderna era baixa, em comparao  do sculo XX eram muito mais numerosos os servios que tinham de ser prestados em bases itinerantes. Os artistas de entretenimentos, 
assim como os latoeiros ambulantes e mascates, viajavam de lugar em lugar. Era mais fcil mudar o pblico do que mudar o repertrio, e para mudar o pblico eles 
tinham de viajar de cidade em cidade, ou de feira em feira, parando nas aldeias que existissem pelo caminho. Particularmente na Europa central, no respeitavam as 
fronteiras polticas, e  a esses homens  tanto quanto s tradies indo-europias arcaicas  que se deve a unidade da cultura popular europeia.* O apresentador 
de teatro de bonecos J. B. Hilverding estava em Praga em 1698, em Dantzig em 1699, em Estocolmo em 1700, em Nuremberg em 1701 e na Basileia em 1702.
Os artistas itinerantes podiam viajar sozinhos ou em trupes. Segundo um conclio 

(*)  de se esperar que algum dia um historiador siga esses andarilhos pela Eu-
ropa (desde que os arquivos municipais permitam sua "atuao") e assim descubra o quanto eles viajavam antes de retornar.
eclesistico russo do sculo XVI, os skomorokhi perambulavam "em grupos de at sessenta, setenta ou mesmo cem homens". Na Inglaterra do sculo XVIII, podiam-se ver 
nas estradas trupes de tocadores ambulantes, alguns pobres demais para viajar de co-che, mas ainda vestidos de forma suficientemente elegante para chamar a ateno. 
Dois atores podiam ser enviados  frente do grupo, para obter autorizao para aluarem nas cidades e aldeias do caminho. Seus acessrios e costumes deviam ser de 
segunda mo, at mesmo rotos, e se apresentariam em estalagens ou barraces (barns): da o termo pejorativo do sculo XIX para o teatro mambembe (barnstorming)
       Os bateleurs franceses levavam uma vida parecida, e o mesmo vale para os farsantes espanhis. Um deles, Agustn de Rojas, deixou um relato vvido da existncia 
dura dos atores. Ele estabeleceu uma distino entre oito tipos de companhias, segundo o tamanho do grupo, o repertrio, a abastana e o nmero de dias que passava 
num determinado lugar, antes de retornar novamente  estrada. Os quatro tipos inferiores descritos por Rojas podem ser considerados "populares". Entre eles, o maior 
era o cambaleo. "O cambaleo  uma mulher que canta e cinco homens que choram";pg.121 eles podiam ficar de quatro a seis dias no mesmo lugar, encenando uma comdia, 
dois autos (peas religiosas) e trs ou quatro interildios cmicos. A gangarilla era bem menor, composta de trs ou quatro homens, "um que pode fazer o bobo e um 
menino que faz os papis de mulher ... eles comem carne assada,dormem no cho, bebem seu gole de vinho, viajam constantemente,apresentam-se em cada terreiro de fazenda". 
A seguir vinha o aque."O aque so dois homens ... dormem vestidos, andam descalos e no matam a fome"; seus nicos acessrios so uma barba falsa e um pandeiro. 
Bem embaixo da escala vinha o bulul, "um ator sozinho, que viaja a p. Ele entra numa aldeia, vai at o padre e lhe diz que conhece uma pea e uma ou duas loas". 
(Uma loa era um prlogo em verso de um auto.)12
         O bului era apenas um entre muitos atores individuais nmades. Georges de Ia Tour deixou uma vvida descrio de um deles,numa pintura que agora se encontra 
no Muse des Beaux-Arts, em Nantes (ilustrao 3); um velho cego est cantando, acompanhado da vielle, espcie de alade rstico conhecido na Inglaterra como hurdy-gurdy 
("viela"). Esses msicos ambulantes muitas vezes constam dos registros de esmolas da igreja no Languedoc, durante o sculo XVI.Alguns eram padres, fato que nos revela 
alguma coisa sobre a pobreza e ostatus do baixo clero naquela poca. Alguns tocavam a vielle, outros o
serpento. No sculo XVIII, a viela foi substituda pela rabeca, mas os chanteurs-chansonniers ou comerciantes de baladas ainda perambulavam como oficiais em seu 
tour de France. Na Itlia, os cantastorie, ou "cantores de estrias", andavam de lugar em lugar, cantando piazza e fazendo-se acompanhar por algum instrumento, em 
geral a viola.
Seus picos s vezes eram to compridos que o recital tinha de se estender por vrios dias seguidos. Na Srvia, esses cantores de estrias se chamavam guslari, porque 
se acompanhavam com gusle, uma espcie de rabeca de uma corda s. Na Rssia, eles eram conhecidos como kobzar, porque tocavam a kobza, outra variedade de alade; 
seus rivais eram os kaleki, especializados em canes sobre santos. No Pas de Gales e na Irlanda, era a harpa o instrumento predileto do artista ambulante; na Espanha, 
no final do perodo, era o violo. Outros ambulantes individuais eram os apresentadores de teatros de bonecos, como o mestre Pedro, em Dom Quixote.13
      Os artistas profissionais, sob muitos aspectos, formavam um grupo caracterstico. Usavam roupas incomuns, alegres e multicoloridas; os skomorokhi vestiam tnicas 
curtas ao estilo ocidental; Tabarin era famoso pelo formato estranho do chapu. Eles tinham apelidos pg.122 incomuns, como "Leite-azedo", um tocador de alade que 
apareceu em Ochsenfurt em 1511, ou "Brle-maison", um cantor famoso de Lille no sculo XVIII. Inmeros eram ciganos, muito solicitados na Europa central como msicos, 
s vezes tornando-se famosos, como a famlia Czinka, na Hungria do sculo XVIII. Muitos vinham da Sabia, onde a terra no era frtil o suficiente para sustentar 
toda a populao e muitos jovens tinham de partir, principalmente nos meses de inverno. Enquanto os suos se tornaram mercenrios, os saboianos se tornavam bufarinheiros, 
rabequistas, flautistas,
 tocadores de realejo,tiradores de sorte ou apresentadores de espetculos, com uma lanterna mgica presa s costas ou uma marmota na corrente. Outros vinham do sul 
da Itlia, como, por exemplo, de Basilicata, onde os camponeses"aprendem desde a infncia a manejar a picareta com uma mo e o flajol ou a gaita com a outra", e 
podiam ser vistos a viajar pela Itlia,a Frana e at a Espanha.14
Como outros nmades, esses viajantes nem sempre tinham boa fama entre gente mais sedentria. Os filhos dos msicos alemes eram tidos como unehrlich, "sem honra", 
e portanto sem o direito de se elegerem como membros das guildas, assim como os filhos dos carrascos e coveiros. Os msicos alemes eram acusados, no raro, de feitiaria, 
e tambm os skomorokhi tinham fama de feiticeiros, decerto devido aos seus truques de prestidigitao.15
         Os artistas ambulantes muitas vezes eram vistos como mendigos,e s vezes deve ter sido difcil distinguir entre o cantor profissional em decadncia e o 
mendigo que cantava ou tocava, por no poder mendigar caridade sem perder o respeito a si prprio. De qualquer forma,essa distino dificilmente teria sido significativa 
para os magistrados,membros sedentrios das classes altas preocupadas com as virtudes da ordem e do trabalho rduo. Suas atitudes se refletem na famosa lei inglesa 
para a "conteno dos vagabundos", aprovada em 1572, que juntava indiscriminadamente "todos os esgrimistas, donos de ursos amestrados, tocadores comuns em interldios 
e menestris ... todos os malabaristas, bufarinheiros, latoeiros ambulantes e pequenos mascates", proibindo-os de "perambular" sem uma autorizao de dois juzes 
de paz.16
        Muitos desses artistas-vagabundos parecem ter sido cegos. Na Espanha, o nome usual para um cantor de rua costumava ser ciego,Tais termos muitas vezes refletem 
esteretipos e no a realidade, mas nesse caso existem muitas provas a favor. No sculo XVIII, em Palermo e Madri, por exemplo, os cantadores cegos de baladas tinham 
sua pr-pria confraria e privilgios. O kobzar e o kaleki (que quer dizer "aleijado") pg.123 russos muitas vezes eram descritos como cegos. Vuk Stefanovi Karadzi 
escreveu que os picos hericos da Srvia circulavam na sua poca graas a cantores cegos: "Os cegos vo esmolando de casa em casa por toda a regio. Eles cantam 
uma cano na frente de cada casa e depois pedem que lhes dem alguma coisa; quando se oferece alguma coisa, eles cantam mais". Filip Visnji contou a Karadzi que 
"ficou cego quando jovem devido  varola e ento percorreu todo o paxalato da Bsnia e foi at Skadar, esmolando e cantando com a gusle". Visnji, um dos maiores 
guslar, finalmente prosperou, comprou seu cavalo e carroa e, segundo Karadzi, se tornou "um perfeito cavalheiro".17 Ele era apenas um dentre uma srie de apresentadores 
cegos famosos do sculo XVIII, entre os quais incluam-se o harpista gals John Parry e os harpistas irlandeses Arthur 0'Neill e Carolan.18 No sculo XVII, havia 
o cantor de baladas Philippot. No sculo XVI, entre os cantores cegos famosos incluam-se o portugus Baltasar Dias, o hngaro Sebestyn Tindi, o italiano Niccol 
d'Arezzo, o alemo Jrg Graff, um ex-Landsknecht. O leitor pode estar se perguntando qual a porcentagem de cegos na populao europeia daquela poca  provavelmente 
bem mais alta do que agora  ou por que os cegos teriam predominado na profisso de Homero  talvez porque um homem de talento na posse de todas as suas faculdades 
dificilmente escolhesse essa atividade de sonrosa (cf. p. 277, adiante).
Entre esses inmeros apresentadores itinerantes, havia alguns poucos cuja inteno principal no era o entretenimento. Nesse perodo, mestres-escolas e pregadores 
ocasionalmente iam para as estradas. No Pas de Gales do sculo XVIII, eram conhecidos os mestresescolas itinerantes, s vezes ditos harpistas ou rabequistas convertidos;o 
mesmo na Frana do sculo XVIII, onde ofereciam seus servios nas feiras, usando uma, duas ou trs plumas no barrete, conforme ensinassem a ler, a escrever, ou tambm 
aritmtica. Havia ainda os santos andarilhos  ortodoxos ou no , como o profeta que se autodenominava "Missus a Deo", que chegou em Bolonha em 1517 e pregou contra 
as ordens religiosas, at que as autoridades o expulsaram da cidade.19
Entre os pregadores catlicos, destacavam-se os frades. So Francisco referira-se  sua ordem como "menestris de Deus" (joculatores Domini), e de fato era um paralelo 
prximo sob muitos aspectos. Como os menestris, os frades andavam de cidade em cidade e frequentemente apresentavam-se na praa do mercado  pois as igrejas no 
eram grandes o suficiente para conter todos os que vinham ouvi-los.Os contemporneos estimaram algumas multides entre 15 mil e 20 mil pg.124 pessoas, e alguns 
chegavam  noite, na vspera, para garantir o lugar.Os frades parecem ter aprendido um ou dois truques com os menestris, cujas pegadas seguiam, pois encontram-se 
referncias desaprovadoras a pregadores que, " maneira de bufes, contam estrias bobas e fazem o povo rir s gargalhadas". Bernardino da Feltre tirou sua sandlia 
e jogou-a num homem que estava dormindo durante o seu sermo. Alguns franciscanos certamente encenavam no plpito; at so Bernardino ficara conhecido por imitar 
o som de uma trombeta ou o zumbido de uma mosca. Roberto Caracciolo, encorajando uma cruzada, teria arrancado seu hbito no meio do sermo, para mostrar uma armadura 
completa por baixo. As anotaes dos sermes de Barletta frequentemente trazem "gritos" (clama). Olivier Mailard escreveu pessoalmente as seguintes instrues cnicas 
 margem de um sermo:"Sente  fique de p  esfregue-se  ahem! ahem!  agora guinche feito um demnio".20
         O paralelo  e a concorrncia  entre pregadores e artistas profissionais foi vrias vezes observado em nosso perodo, notadamente por Diderot, que descreveu 
Veneza como uma cidade onde "numa nica praa voc pode ver, de um lado, um palco com montimbanchi encenando farsas engraadas mas medonhamente indecentes, e, de 
outro, um outro palco com padres encenando farsas de natureza diversa e gritando: 'No dem ateno queles miserveis, cavalheiros;o Pulcinello que vocs esto 
seguindo  um pobre bobo; eis aqui (mostrando o crucifixo) o verdadeiro Pulcinello!T ",21 A estria de que o pregador jesuta francs Emond Auger tinha sido condutor 
de um urso adestrado na sua existncia laica certamente era ben trovata, e at pode ter sido verdadeira.
Alguns pregadores protestantes seguiram o exemplo dos frades.Pregadores leigos anabatstas perambulavam pela Alemanha do sculo XVI, e os pregadores calvinistas 
perambulavam nas Cvennes. No norte do Pas de Gales, em meados do sculo XVII, uma figura notvel era Vavasor Powell, "o metropolitano dos itinerantes", como o 
chamavam os seus adversrios; ele pregava em gals nos mercados e feiras. Na Inglaterra, na mesma poca, existiam muitos pregadores leigos sectrios "fanticos", 
seguindo seu caminho de um mercado ou celeiro a outro, fazendo curas e pregando sermes, aprendendo com o povo sagaz e com o clero. O maior dentre esses pregadores, 
John Bunyan, j estava familiarizado, com a vida andarilha desde o seu ofcio de latoeiro ambulante. Quanto  sua teatralidade, o pregador dissidente do sculo XVII 
era descrito como algum que "atua muito com suas mos, batendo palmas ou golpeando o peito, ou agitando-as com enlevo".22 Pg. 125

OS AMADORES
        Os portadores profissionais da tradio at aqui descritos compem apenas o topo do iceberg, e os outros mal so visveis. Existiam os amadores e existiam 
os semiprofissionais, especialistas em tempo parcial que tinham outra atividade, mas podiam retirar uma renda complementar ao cantarem, tocarem ou curarem. S sabemos 
deles quando se organizavam em associaes ou, por alguma razo, atraam a ateo das autoridades ou das classes altas, por serem artistas de talento ou suspeitos 
de sedio, heresia ou feitiaria.
        No sudoeste da Europa, onde as cidades tinham mais importncia do que em outras reas, as peas e outras festas muitas vezes eram montadas por artesos urbanos, 
reunidos em guildas, irmandades ou clubes, com nomes imaginativos como as "abadias da folia" e do "desgoverno". Os mistrios ingleses eram apresentados pelas guildas, 
como a dos aougueiros ou carpinteiros de York, os aparadores de tecido ou os alfaiates de Coventry, s vezes com o auxlio de atores profissionais nos papis principais. 
Da mesma forma, as guildas espanholas montavam quadros vivos para a festa de Corpus Christi. Em Paris, a Confrrie de Ia Passion, que encenou muitos mistrios nos 
sculos XV e XVI, era uma irmandade de artesos, descritos desdenhosamente em 1542 como "gens ignare, artisans mecaniques, ne sachant ni A ni B". Em Florena, as 
guildas ou as agremiaes profissionais, como as chamadas "potncias" (potenze), desempenhavam um papel importante nos mistrios e quadros vivos, principalmente 
na festa de so Joo Batista, o padroeiro da cidade. Na Siena do sculo XVI, havia peas escritas por membros de uma associao chamada "Rsticos" (Rozzi), de onde 
estavam formalmente excludas as pessoas de status elevado. Entre os membros dirigentes dos Rozzi, havia um vendedor de papel chamado Silvestro, que adotou o apelido 
Fumoso ("Enfumaado","Obscuro"), e um alfaiate chamado Gianbattista, cujo apelido era Falatico ("Falacioso", "Fantstico"), Tambm nas cidades alems, existiam grupos 
de artesos que montavam peas e quadros vivos, especialmente para o Carnaval. Em Nuremberg em particular, alguns artesos ficaram famosos por escreverem peas, 
notadamente o funileiro Hans Rosenplt e o barbeiro Hans Folz (ambos no sculo XV) e, sobretudo, o sapateiro Hans Sachs, que escreveu duzentas e tantas peas e cerca 
de 2 mil textos menores. Pode-se perguntar como  que ele encontrava tempo para fazer algum sapato.23
        Por outro lado, os vrios bairros da cidade podiam organizar festas, como em Siena, onde os contrade organizavam a famosa corrida pg. 126 ou palio, que 
ainda hoje se realiza. As cidades podiam competir entre si pela melhor pea escrita e apresentada. Essas competies eram especialmente importantes na Holanda; na 
competio de 1539, concorreram dezenove sociedades teatrais ou "cmaras de retrica" (rederjkkamers). Catorze delas representavam cidades, e as outras cinco vinham 
do campo. O teatro amador rural parece ter sido de importncia excepcional  ou excepcionalmente bem documentado  em Flandres, talvez porque a regio fosse mais 
urbanizada do que outros lugares, tornando-se mais fcil para os aldees imitarem as maneiras dos habitantes das cidades. Conta-se que na Flandres do sculo XVIII 
cada aldeia tinha sua associao, muitas vezes dirigida pelo mestre-escola local ou por um liedzanger profissional, que se apresentava nas feiras ou nas noites de 
domingo. Os atores de pantomimas inglesas no parecem ter partilhado desse entusiasmo. No sculo XVIII, eles tambm apresentavam peas, mas apenas uma ou duas vezes 
por ano. H referncias nos arquivos de Essex que sugerem que j faziam esse tipo de coisa no sculo XVI.24
        Poemas e peas eram compostos e recitados por artesos nas cmaras de retrica na Holanda e nos puys franceses. Existiam competies e prmios peridicos 
para poesias; como os jos florals, em Toulouse. O Meistergesang alemo era largamente uma forma artstica de artesos, notadamente alfaiates, tecelos e sapateiros; 
a mtrica complexa devia tornar o ofcio to difcil para o mestre quanto a elaborada ourivesaria cultivada nas mesmas cidades alems na poca. Essas organizaes 
eram ao mesmo tempo expresses de patriotismo cvico, um equivalente cultural das milcias civis, com suas festas e competies de tiro ao alvo, e um indicador da 
seriedade com que se consideravam as artes de espetculo naquela poca.25
         claro que os artesos e camponeses no detinham o monoplio da organizao de festividades. Os nobres pertenciam a algumas sociedades que organizavam diverses 
de rua, como a Abbaye des Conards, na Rouen do sculo XVI, ou a Compagnie de Ia Mre Folle, na Dijon do sculo XVII. Em Paris, algumas das farsas encenadas durante 
o Carnaval eram obra da Basoche, agremiao dos escrivos dos tribunais. Em Montpeilier e outros lugares, os estudantes se destacavam nesse tipo de apresentao, 
e mesmo agora, cerca de quatrocentos anos depois, algumas peas suas ainda no perderam o ar de uma calourada ou um teatro de revista estudantil.26
Nesses casos (que, significativamente, pertencem todos  primeira metade do nosso perodo), vemos as pessoas cultas, as classes altas, a participar coletivamente 
da cultura popular. Portanto, no admira pg.127 que algumas pessoas bem conhecidas tenham ajudado a cri-la.Os autores de mistrios franceses incluem uma princesa, 
Margarida de
Navarra, e os autores dos mistrios florentinos incluem um professor de direito cannico em Pisa, Pierozzo Castellani, e o dirigente de Florena, o "magnfico" Lorenzo 
de Medici. Lorenzo tambm comps canes de Carnaval, e o mesmo fez seu contemporneo mais novo,Niccol Machiavelli. O nobre Gian Giorgio Alione, do sculo XVI, 
escreveu farsas no dialeto de Asti. Entre os compositores conhecidos de baladas que circulavam em folhetos, encontramos o frei Ambrosio Montesino, confessor da rainha 
Isabel da Espanha; na Inglaterra, entre outros de menor nomeada, encontramos dois membros do Parlamento, Andrew Marvell e Thomas Warton, este autor de Lilliburlero, 
e Jonathan Swift. Na Esccia, havia a sra. Brown, de Falkland, esposa de um professor. Como sugere essa justaposio, o raro quanto  sra. Brown no era o fato de 
compor baladas, mas o comp-las  maneira tradicional, de improviso.27
        Depois dos amadores de classe alta, sabemos muito sobre os semiprofissionais de classe baixa. Entre os chanteurs-chansonniers da Frana do sculo XVIII, 
Alexandre era pedreiro, Hayez mulquinier, ao passo que Bazolle "La Joie" era, ou havia sido, soldado. John Graeme de Sowport, em Cumberland, foi citado por Walter 
Scott como "de profisso limpador ambulante de relgios".  provvel que, fora das rotas principais, predominassem no perodo os semiprofissionais, recrutados basicamente 
dentre as atividades itinerantes, que incluam a de alfaiate. Adam Ferguson registrou certa vez um poema herico de um alfaiate ambulante, que estava trabalhando 
na casa do pai de Ferguson; Adam Puschman, um Meistersinger alemo do sculo XVI, era um outro alfaiate; na Rssia do sculo XIX, uma fonte importante de byliny 
para Rybnikov foi o alfaiate Leonty Bogdanovitch.28 Uns poucos membros desse grupo, que ficaram famosos ou se tornaram profissionais, deixaram detalhes preciosos 
sobre suas vidas anteriores. Alguns se tornam visveis bem no momento em que estavam deixando de ser poetas populares. Giovan Domenico Pri comeou como pastor que 
improvisava canes enquanto cuidava do rebanho, aprendendo o seu ofcio com Ariosto e Tasso. (O mesmo se deu com Divizia, a camponesa iletrada que Montaigne encontrou 
perto de Lucca: ela aprendeu a compor versos ouvindo seu tio ler Ariosto.) Pri atraiu a ateno do arquiduque Cosimo II, da Toscana, e pde publicar seus poemas 
 e abandonar o estilo popular. O mesmo se poderia dizer sobre Stephen Duck, que aprendeu o ofcio de poeta estudando Milton, enquanto era debulhador em Wiltshire; 
recebeu a proteo da rainha Carolina e virou padre. pg.128 Pietro Fullone, mineiro de Palermo no sculo XVII, tornou-se lendrio em vida pela facilidade com que 
improvisava versos, mas h uma curiosa distncia entre essa lenda e a poesia publicada atribuda a ele, que nada tem de popular. Outros poetas parecem ter se mantido 
dentro da tradio popular, depois que ficaram bastante conhecidos, como  o caso de John Taylor, o barqueiro do Tamisa, ou de Giulio Cesare Croce, que trabalhava 
como ferreiro em Bolonha, antes de se tornar profissional. Em sua autobiografia, ficamos sabendo que se inspirou a versejar depois que um vizinho lhe deu um exemplar 
danificado das Metamorfoses de Ovdio.29
        Mais obscuros so os contadores de estrias, msicos, pregadores e curandeiros em tempo parcial, que, ao contrrio dos poetas, no eram adotados pelos grandes. 
Quantos contadores de estrias do calibre de die Frau Viehmnnin existiram antes de 1800? As tradies do relato de estrias tiveram importncia igual por toda a 
Europa? Na Irlanda, os seanchaidhthe, ou contadores de romances lendrios (shanachies), parecem ter desempenhado um papel particularmente importante entren os meados 
do sculo XVII, quando os ingleses destruram a velha nobreza irlandesa da qual dependiam os bardos tradicionais, e os meados do sculo XIX, a poca da Grande Fome. 
O shanachie era um campons comum com dotes extraordinrios de raconteur. Ele contava suas estrias em irlands e formava o seu repertrio em famlia ou com artistas 
ambulantes. Seu equivalente galico, cyfarwydd, tambm foi ativo no sculo XVIII. Turistas estrangeiros oferecem-nos alguns relances preciosos sobre contadores de 
estrias italianos no final do sculo XVIII. Um clrigo ingls lembrava-se  com algum desgosto  de ter visto "no cais de Npoles ... uma coisa magra e emaciada 
lendo com infinita gesticulao e nfase o Orlando furioso e traduzindo-o para o dialeto napolitano". No cais de Veneza, Goethe viu um homem a contar estrias em 
dialeto para um pblico composto principalmente de pessoas de classe baixa e admirou a variedade e fora dos seus gestos. Seria Straparola um contador de estrias 
como esses?30
        Sobre os msicos, s sabemos de alguma coisa quando as autoridades tentavam regulament-los, como, por exemplo, na Sucia e na Sua. Na Sucia, durante 
os sculos XVII e XVIII, os msicos ficavam ligados a um distrito ou parquia especfica e tinham de receber um garningsbrev, isto , uma autorizao para trabalharem 
nessa atividade. Na Sua francesa, os mntriers ou tocadores tambm estavam sujeitos a regulamentaes por consistrios calvinistas, e os registros mostram que 
raramente eram profissionais em tempo integral, sendo paralelamente criados, sapateiros, alfaiates, pedreiros ou carpinteiros. Pg.129 Possivelmente  significativo 
que todas essas profisses fossem itinerantes. Por certo outros profissionais em tempo parcial eram as "velhas que so contratadas na Calbria para uivar nos enterros", 
como disse to indelicadamente um visitante ingls  as carpideiras, figuras familiares na Irlanda, Terras Altas escocesas e Rssia, sobre as quais sabemos pouqussimo.31
        Um incmodo maior para as autoridades  e vice-versa  eram os pregadores laicos, profetas, curandeiros e adivinhos. Uns poucos ficaram famosos antes que 
lhes fechassem a boca, como Hans Bhm, "o tambor de Niklashausen", pastor da rea de Wrzburg (e tocador de tambor nos feriados), que se inspirou a pregar o milnio 
igualitrio em 1476; ou Pietro Bernardo, um ourives florentino que comeou a pregar e profetizar em estilo savonarolesco por volta de 1496 e foi executado seis anos 
depois; ou Gonzalo Anes Bandarra, sapateiro portugus que virou poeta e profeta e caiu nas mos da Inquisio.32
        Menos espetacular era a maioria dos curandeiros e adivinhos populares, que podem ser encontrados em muitas partes da Europa com nomes diversos, mas tcnicas 
semelhantes. Na Inglaterra, eram conhecidos como cunning men ("homens astutos") e wise women ("mulheres sbias"); na Sucia, de forma parecida, como kloka gubbarna 
e visa kringarna na Polnia, como madry, "sbios"; na Espanha, como saludadores, "curadores"; na Siclia, como giravoli, "andarilhos", e assim por diante. Eles 
tratavam seus pacientes com ervas ou, como na Espanha, com po umedecido na boca do curandeiro, com sua saliva e, o que tambm era importante, com uma srie de sortilgios, 
preces e rituais em que tambm tinham seu lugar as velas e (em regies catlicas) at hstias consagradas. Alguns se especializavam em doenas especificas, como 
os giravoli, em mordidas de cobra, ao passo que outros eram praticantes mais gerais, tratando de animais e pessoas. Alguns faziam "vaticnios" ou adivinhaes, encontrando 
dinheiro perdido, descobrindo rostos de ladres numa tigela d'gua (pois a bola de cristal  um instrumento mais recente) ou revelando os nomes deles atravs do 
orculo do crivo equilibrado na ponta de uma tesoura, que girava quando era citado o nome do culpado.
        A "mulher sbia" muitas vezes era parteira, que podia assistir a parturiente com frmulas mgicas e preces oficiais; o "homem astuto" podia exercer qualquer 
tipo de profisso. Na Itlia do norte, no sculo XVI, h referncias a curandeiros que eram camponeses, padres, pastores, pedreiros e tecelos. Na Sucia, kloka 
eram os lapes, que os suecos no consideravam humanos, e tambm os clrigos, ferreiros e msicos, trs atividades tradicionalmente associadas a poderes mgicos. 
Pg 130 * Alguns curandeiros se gabavam de ter nascido sob uma conjuno favorvel ou com a cabea coberta pela "coifa" (um fragmento da membrana amnitica). Raramente 
sabemos como vieram a aprender o ofcio; provavelmente grande parte foi transmitida pela famlia, talvez complementada por memrias de um charlato urbano, um sbio 
em escala maior.33
        Um dos ossos do ofcio de curandeiro era ser acusado de feitiaria, sob a alegao de que "quem sabe curar sabe destruir" (qui scit sanare scit destruere), 
como declarou uma testemunha num processo em Mdena, em 1499. Na Frana, o sbio era s vezes conhecido como conjureur ou maige ("mago"), ao passo que as "mulheres 
sbias" eram comumente referidas como bruxas. Sua fama temvel no  surpreendente. Seus clientes s recorriam a elas quando tinham problemas que no podiam tratar 
por si mesmos, fato que sugeria uma origem sobrenatural dos seus males; e como aquela "gente astuta" haveria de adquirir familiaridade com o sobrenatural a no ser 
que contasse com a ajuda do demnio? Algumas fotografias da "gente astuta", tiradas na Finlndia e na Sucia no comeo deste sculo, quando a tradio ainda era 
florescente, mostram-nos com olhos muito abertos, fixos, mas vazios, bastando para assustar quando vistos simplesmente entre as pginas de um livro. No admira que 
s vezes fossem acusados de feitiaria e mau-olhado.34
        Graas a tais acusaes, os historiadores puderam descobrir algo sobre os praticantes tomados individualmente. Romn Ramrez, um curandero e contador de 
estrias mourisco, preso pela Inquisio em 1595, mal sabia ler  os inquisidores testaram-no , mas tinha alguns livros, entre eles Dioscrides, sobre medicina, 
e o famoso romance de cavalaria Amadis de Gaule. Um caso excepcionalmente bem documentado  o de Catharina Fagerberg, "a donzela sbia", filha de um alfaiate de 
Smaland, na Sucia, que foi julgada por feitiaria em 1732 e absolvida. Catharina curava pessoas que tinham trollskotter, "tiros mgicos", como se chamavam as doenas 
de origem desconhecida, espantava os maus espritos e tambm enviava seu prprio esprito para outros lugares, para descobrir o que estava acontecendo. Ela perguntava 
aos pacientes se eles tinham inimigos e dizia-lhes para tentarem a reconciliao. Esses detalhes sugerem que Catharina podia ser descrita em termos tradicionais 
como uma xam e em termos modernos como uma mistura de mdium com psiquiatra. 

(*) Uma balada compilada na Esccia no sculo XVIII (Child 44) tambm apresenta o "ferreiro-encarvoado" (coal-blacksmith) como especialista em transformao mgica. 
Pg.131

A impresso se confirma se olharmos os estudos sobre curandeiros populares atuais, no Mxico, por exemplo, pois eles, assim como Catharina, incentivam os pacientes 
a "confessar" seus problemas e trabalham inicialmente induzindo e a seguir aliviando a ansiedade e a culpa.35
        Tambm existem registros sobre pintores populares amadores. Entre os pintores de igreja da Noruega, no sculo XVII, havia vrios padres de aldeia.36

CENRIOS
        Para entender qualquer item cultural precisamos situa-lo no contexto, o que inclui seu contexto fsico ou cenrio social, pblico ou privado, dentro ou fora 
de casa, pois esse espao fsico ajuda a estruturar os eventos que nele ocorrem. Na medida em que a cultura popular era transmitida em casa, dentro do lar, ela praticamente 
escapa ao historiador interessado neste perodo. Apenas projetando retrospectivamente as descries das "ocasies de contos" apresentadas peos folcloristas modernos 
e justapondo-as a alguns relatos de fico sobre os sculos XVI e XVII  que poderemos imaginar o cenrio das narrativas tradicionais: o contador de estrias em 
sua cadeira  se havia alguma  ao p do fogo numa noite de inverno, ou o grupo de mulheres reunidas numa casa para fiar e contar estrias enquanto trabalhavam. 
Ao lado da casa particular, podemos pr o celeiro, cenrios das apresentaes de atores e pregadores ambulantes.37
        H muito mais a se dizer sobre os cenrios pblicos: a igreja, a taverna e a praa do mercado. A igreja era muito usada para propsitos laicos nesse perodo, 
tal como fora durante a Idade Mdia, apesar das objees do clero catlico e protestante. Os mistrios eram encenados na igreja. O adro era usado para danas e banquetes 
pelo Senhor do Desgoverno e seus alegres sditos. A prpria igreja era o cenrio para a "viglia" da parquia (a veille francesa, a veglia italiana). Na vspera 
da festa do santo padroeiro, os paroquianos podiam passar a noite na igreja, comendo e bebendo, cantando e danando. A persistncia desse costume nos revela algo 
sobre a falta de locais de encontro nas aldeias do perodo e algo sobre as atitudes populares em relao ao sagrado: mais ntimas, mais familiares do que viriam 
a ser depois. A igreja era particularmente importante como centro cultural nas regies em que o povo vivia em herdades distantes umas das outras, como na Noruega, 
e no poderia se reunir de outra forma.38 pg.132
        Centro ainda mais importante para a cultura popular no campo e na cidade era a estalagem, a taverna, a cervejaria ou a adega. Para a Inglaterra de 1500 a 
1800 as evidncias so esmagadoras. As estalagens eram locais para se assistir a rinhas de galos, jogar cartas ou gamo, dados ou uma espcie de boliche com nove 
pinos. Os menestris e harpistas se apresentavam nas tavernas, e danava-se, s vezes com cavalinhos-de-pau. As cervejarias eram cenrio para a arte popular. "Nesses 
estabelecimentos", conforme nos  narrado, "vocs vero a histria de Judith, Susana, Daniel no covil do leo, ou o rico e Lzaro pintados na parede." s vezes, 
colavam-se os folhetos de baladas nas paredes das estalagens, para que mais gente pudesse cantar junto. O estalajadeiro e os fregueses divulgavam boatos e mexericos, 
criticavam as autoridades e, durante a Reforma, discutiam sobre os sacramentos ou as inovaes religiosas. Robin Goodfellow His Mad Pranks and Merry Jests ("Robin 
Goodfellow, suas loucas brincadeiras e ditos engraados") se passa numa cervejaria em Kent, e a dona aparece contando a estria aos fregueses. Mesmo os devotos podiam 
se reunir em estalagens para conversar sobre religio, ocupando uma sala privada para evitar interrupes.
        Particularmente em Londres, certas estalagens  e seus ptios eram importantes centros culturais, sendo que o estalajadeiro atuava como empresrio ou animateur. 
Se se quisesse assistir a aulamentos de ursos, palhaos, rinhas de galo, esgrimistas, cavalos adestrados, para no falar das peas, os lugares a ir, no final do 
sculo XVI, eram o Bell, Cross Keys e Bei Sauvage, todos na Gracechurch Street. Figuras importantes no mundo das diverses eram proprietrios de tavernas, como o 
palhao Richard Tarleton ou, no sculo XVIII, o pugilista Daniel Mendoza (que tinha lutado em ptios de estalagens) e o colosso Thomas Topham. Certas estalagens 
perto de Covent Garden, como o Harlequin, na Drury Lane, eram os pontos de encontro de atores do sculo XVIII, empregados ou desempregados. Naquele sculo, ainda 
se apresentavam peas no ptio da estalagem Queen's Arms, em Southwark.39
        As estalagens e tavernas inglesas tm sido estudadas mais cuidadosamente do que seus equivalentes continentais  o cabaret francs (oustal no sul), a venta 
espanhola, a gospoda ou karczma polonesa, a Wirtshaus alem, e assim por diante , de modo que  difcil dizer se o pub ingls tinha uma importncia cultural nica 
ou no. Provavelmente no, pois o cabaretier francs foi recentemente descrito como "uma figura fundamental na cultura popular, centro de informao ... organizador 
da diverso coletiva". Ele podia organizar fossem festas ou pg 133 motins, como  o caso de Franois Simon, o Pequeno Mouro, no sudoeste da Frana em 1635. Da 
mesma forma, os estalajadeiros desempenharam um papel de destaque na Guerra Camponesa alem de 1525.40 Quadros holandeses lembram-nos da importncia da taverna como 
local de danas  dentro e fora dela , e o mesmo se d com a palavra hngara csrdas, derivada de csrda, "estalagem rural". As estalagens estavam associadas a 
atores tanto na Inglaterra como na Europa continental. As referncias a estalajadeiros nas peas carnavalescas alems sugerem que elas eram apresentadas nesse cenrio: 
temos de imaginar a trupe aparecendo inesperadamente, pedindo silncio e comeando a se apresentar. Na Frana do sculo XVIII, os cantores se apresentavam em cabarets, 
e um deles, em Paris, o Tambour Royal, era um ponto conhecido de atores. Na Espanha, titereiros ambulantes, como o mestre Pedro, em Dom Quixote, costumavam se apresentar 
em estalagens. Exilado em sua propriedade rural, Machiavelli se entretinha na osteria local, e jogava cricca e trich-trach com o moleiro e o padeiro.41
Entretanto,  provvel que a taverna como centro de entretenimento fosse menos importante no sul do que no norte da Europa. Nos pases mediterrnicos, o centro efetvo 
da cultura popular era  a piazza. Havia apresentaes de bonecos na praa do mercado de Sevilha no sculo XVII, enquanto em Madri podia-se assistir a peas, touradas, 
corridas e torneios na Plaza Mayor, ou ouvir baladas, se a voz dos cantores no fosse afogada pelos gritos dos amoladores de facas e das vendedoras de castanhas. 
Em Roma, o povo ia  Piazza Navona, para ver os charlates e comedores de fogo, ou  Piazza Pasquino para as ltimas pasquinadas. Em Florena, a Piazza Signoria 
era o local dos espetculos oficiais, a Piazza San Croce o local das corridas de bfalos, touradas e futebol, e a Piazza San Martino (perto de Or San Michele) era 
o local para se ouvir os cantores de estrias. Em Veneza, era na Piazza San Marco que os principais charlartes montavam seus estrados, soltavam suas piadas e vendiam 
seus remdios. 
A cultura deipiazza estendia-se a Paris, pois a Place de Grve era o centro de espetculos pblicos como as execues  Cartouche l foi torturado na roda em 1721 
 ou as fogueiras na noite de so Joo. Estendia-se at Lille, onde os cantores se apresentavam na Petite Place. Alm das praas, tambm as pontes eram centros culturais, 
e em Paris, a partir de 1600, havia Pont-Neuf, o grande ponto de encontro de tocadores e mestres titereiros, charlates e tira-dentes, cantores de baladas e vendedores 
de panfletos, para no falar dos sargentos de recrutamento, vendedores de laranjas e ladres de bolsas. Um homem apelidado pg. 134 "le Rhingrave" vendia canes 
e cebolas ao  mesmo tempo. To importantes eram os cantores que o termo pont-neuf veio a significar nada mais que "cantiga".42
O que acontecia todos os dias em Pont-Neuf acontecia em muitas partes da Europa nos dias de mercado ou durante as feiras. A importncia econmica das feiras na Europa 
pr-industrial  sabida: eram centros de compra itinerantes, o complemento do mascate, mas em escala gigantesca. Numa determinada regio, a feira era programada 
de modo a coincidir com uma grande festa: a festa de Ascenso, em Veneza (com uma feira de quinze dias), a festa de santo Antnio, em Pdua (outra feira de quinze 
dias), e assim por diante. Nas feiras, os camponeses teriam a oportunidade de comprar livretes ou figuras de cermica que, de outra forma, talvez nunca chegassem 
a ver.
O que requer aqui maior destaque so os aspectos no econmicos dessa instituio. As feiras no eram apenas locais para o comrcio de cavalos ou carneiros e a contratao 
de empregados, mas tambm, como nos pases menos desenvolvidos de hoje, locais onde os jovens se encontravam sem ficarem sob a superviso da famlia, e onde todos 
podiam assistir aos artistas ambulantes, danar ou ouvir as ltimas novidades.43 A Sucia do sculo XVI era um pas suficientemente pequeno para que o rei fosse 
aos marknadsmten ou "reunies de mercado" para expor suas polticas ao povo e saber o que a populao estava pensando. Por volta de 1600, algumas trupes de atores 
ingleses e franceses costumavam ir a Frankfurt duas vezes por ano, na Pscoa e no outono, para entreter as multides nas feiras.44 Fora de Paris, no final do sculo 
XVII desenvolveu-se uma forma especfica de teatro na Foire Saint-Germain, que ia de 3 de fevereiro at a Pscoa, e na Foire Saint-Laurent, que ia do final de junho 
at 1 de outubro. Aqui, entre cafs e bancas de brinquedos, acrobatas e animais exticos, os atores italianos apresentavam peas ou (quando estas eram proibidas, 
por infringirem o monoplio teatral da Comdie Franaise) encenavam espetculos de mmica, peras cmicas e pantomimas.45
Na Inglaterra, a feira de so Bartolomeu e a feira de Stourbridge eram centros principais de diverses. A feira de so Bartolomeu se realizava em Smithfield, em 
25 de agosto, dia daquele santo. A, no sculo XVII, podia-se assistir a peas, teatro de bonecos, palhaos, danarinos equilibristas e figuras de cera, apresentados 
por homens vestidos de bobos ou selvagens das florestas, enquanto os ouvidos eram atacados por tambores e cornetas de brinquedo, o nariz assaltado pelo que Ned Ward 
descreveu como "os eflvios odorferos que sobem do grelhamento pg. 135 de leites", pois porco assado era um prato que fazia parte da ocasio.
A feira realizada em Stourbridge, perto de Cambridge, estendia-se por trs semanas, a partir de 8 de setembro. Quando Jaime I lanou decretos contra os "jogos inteis" 
em Stourbridge, ele mencionou "aulamento de touros, aulamento de ursos, peas vulgares, espetculos pblicos, interldios, comdias e tragdias em lngua inglesa, 
jogos de malha, nove-buracos", e outras evidncias do sculo XVII permitem-nos acrescentar corridas de cavalos e apresentaes de acrobatas, prestigitadores, pregadores, 
titereiros e danarinos equilibristas, talvez os mesmos titereiros e danarinos que podiam ser vistos na feira de so Bartolomeu, poucos dias antes. A facilidade 
de encontros na feira era tal que atraa at os devotos. Os presbiterianos realizaram um snodo na feira de Stourbridge por volta de 1588, e em 1678 l se reuniram 
os muggletonianos.46

TRADIO E CRIATIVIDADE
A questo mais importante a se levantar sobre esses artesos e apresentadores, profissionais e amadores,  tambm a de resposta mais difcil. Qual era a sua contribuio 
individual? O apresentador tradicional s vezes tem sido visto, desde os irmos Grimm em diante, como apenas um porta-voz da comunidade, um transmissor da tradio 
popular. Mas outros estudiosos e crticos, desde a poca de A. W. Schiegel e Walter Scott, tm acentuado a importncia do portador individual da tradio, que tem 
sua prpria maneira de cantar sua cano ou contar sua estria.47 Quem est certo? H algo de estranho em tentar fazer generalizaes sobre as individualidades: 
evidentemente, alguns cantores ou contadores de estrias, palhaos ou pintores eram mais criativos do que outros. De qualquer forma, as evidncias so escassas demais, 
mesmo sobre os portadores de tradio mais famosos do perodo 1500-1800, para sustentar qualquer concluso definitiva. Tudo o que se pode fazer a respeito  apresentar 
alguns argumentos contra os dois extremos e convidar o leitor a escolher entre as faixas intermedirias do espectro.
No  difcil refutar a posio extrema de que das Volk dichtet, "o povo cria coletivamente". Vimos que muitos apresentadores, individualmente, e alguns artesos 
eram conhecidos pelos seus nomes nesses perodos, e que alguns deles gozavam de grande fama.  Pg 136 Richard Tarleton, por exemplo, foi descrito como "o primeiro 
ator a alcanar o estrelato". Sabemos, atravs das competies que no raro se realizavam, que alguns apresentadores tinham conscincia dos seus talentos e gostavam 
de superar seus colegas. John Parry teve uma famosa disputa musical com um colega harpista, Hugh Shon Prys, e Carolan enfrentou um "preo duro" com MacCabe. No sculo 
XVII, a sfida, ou "desafio", de um poeta popular a outro, para ver quem improvisava os melhores versos, parece ter sido uma instituio tanto na Siclia como no 
Japo.48
Estudos modernos sobre os portadores de tradio sugerem que alguns so "fiis na incompreenso", conservando frases que no entendem, enquanto outros no so dominados 
pela tradio que conservam e sentem-se livres para reinterpret-la segundo suas preferncias pessoais. Na maior parte dos casos, eles no decoram a cantiga ou a 
estria, mas recriam-na a cada apresentao, procedimento este que d muito espao para as inovaes. Da que, como disse o folclorista americano Phillips Barry, 
"existam textos, mas no o texto; rias, mas no a ria".49
Que essa era tambm a forma como os apresentadores trabalhavam nos incios da Europa moderna nos  sugerido pelo fato de que as baladas registradas nesse perodo, 
e tambm posteriormente, surgem com inmeras variantes. Um compilador do final do sculo XVIII, "Otmar", assinalou que os cantores que ele conhecia contavam a cada 
vez suas estrias de formas diversas, conforme a audincia ou at conforme o tempo disponvel. No caso de alguns cantores do final do perodo, como Filip Visnji, 
cujas apresentaes foram detalhadamente registradas por Karadzi, foi at possvel estudar com certa mincia as idiossincrasias e inovaes de cada um deles. Em 
outros casos, temos de nos contentar com comentrios contemporneos ou subcontemporneos um tanto mais vagos. Atribua-se ao ator italiano Silvio Fiorillo a autoria 
do personagem Pulcinella, enquanto o fato de Josef Anton Stranitzky ter transformado o tradicional papel de palhao de Hanswurst, que ele representava com trajes 
camponeses de Salzburg, fez com que passasse a ser considerado o criador do teatro popular vienense  embora suas prprias apresentaes se destinassem principalmente 
 corte. No  raro encontrar letra e msica de canes populares atribudas a determinados indivduos, pelo menos na segunda metade do nosso perodo; entre os exemplos 
escoceses, incluem-se The Auld Man's Mare's Dead ("A gua do velho morreu"), atribuda a Patrick Birnie, rabequista do sculo XVII, e Macpherson 's Rant ("Arenga 
de Macpherson"), que se afirma ter sido composta e cantada no pg 137 patbulo por um outro rabequista, James Macpherson, logo antes de sua execuo por roubo, em 
1700. Nas artes visuais, significativas inovaes foram atribudas a pintores e entalhadores camponeses, como Malar Erik Eliasson, de Dalarna, na Sucia, e Jakob 
Klukstad, de Gudbrandsdal, na Noruega, ambos em atividade no final do sculo XVIII.50
Essas provas obviamente prejudicam a tese dos Grimm, mas isso no nos deve levar a concluir que a "autoria" individual de uma variante de uma cano ou estria tradicional 
fosse exatamente igual  autoria de uma obra literria do perodo. Alguns poetas populares urbanos assinavam no final de suas poesias, como que para garantir que 
receberiam o crdito pela sua criatividade:

Dass aus dem Schwank kein Unrat wachs,
Bitt und begehrt mit Fleiss Hans Sachs,
(Que dessa caoada no saia nada desgracioso, /  o que pede Hans Sachs e espera fervoroso).

No entanto, como j se sugeriu, Sachs estava  margem da cultura popular tradicional. A atitude mais tradicional era a que Karadzi observou em suas viagens pela 
Srvia. L, nenhum apresentador admitiria ter composto uma nova cano. "Todos negam a responsabilidade, mesmo o verdadeiro compositor, e eles dizem que a ouviram 
de uma terceira pessoa."51 O apresentador tem conscincia do que deve  tradio, e da, talvez, a ausncia de referncias ao "eu", ao prprio narrador em primeira 
pessoa. O pblico tambm tem conscincia de que o apresentador est seguindo a tradio, de modo que no transmitem o nome dele junto com suas cantigas ou estrias 
 da o anonimato da cano e do conto popular. O indivduo pode inventar, mas numa cultura oral, como ressaltou Cecil Sharp, "a comunidade seleciona". Se um indivduo 
produz inovaes ou variaes apreciadas pela comunidade, elas sero imitadas e assim passaro a fazer parte do repertrio coletivo da tradio. Se suas inovaes 
no so aprovadas, elas morrero com ele, ou at antes. Assim, sucessivos pblicos exercem uma "censura preventiva" e decidem se uma determinada cano ou estria 
vai sobreviver, e de que forma sobreviver.  nesse sentido ( parte o estmulo que do durante a apresentao) que o povo participa da criao e transformao da 
cultura popular, da mesma forma como participa da criao e transformao de sua lngua natal.52
Em suma, o apresentador tradicional no era um simples porta-voz da tradio, mas no estava livre para inventar o que quisesse. Ele pg. 138 no era apresentador 
nem compositor no sentido moderno desses termos. Ele fazia suas variaes pessoais, mas dentro de uma estrutura tradicional. A descrio dessa estrutura ser a 
tarefa do prximo captulo. Pg.139
